"Sirenes, bares em chamas, carros se chocando, a noite me chama. A coisa escrita em sangue nas paredes das danceterias e dos hospitais; os poemas incompletos e o vermelho sempre verde dos sinais." (Paulo Leminski)

Últimas

E que me lembrasse a cada instante…

Pensar em tudo que se passou,
Que se pôde sonhar e não realizou
A vida tentando escapar,
Mas não por agora

Ao mesmo tempo tanta coisa se amou,
Se refez, se perdeu, se conquistou,
Retratos estampados do nosso amor,
Em preto e branco, pregados na parede,

Revelando pra sempre a gente,
Nosso orgulho um do outro,
Olhando pra lente como quem dissesse
“não queremos mais nada nesse mundo”

E que me lembrasse a cada instante
Que valeu a pena cada lance,
E que valerá, tenha certeza, pra toda a vida

Vou levar, vou te levar,
Pra onde for, vou te levar
Vou levar, vou te levar,
Pra onde for, vou te levar…

( Lobão )

Corredor Infinito

Noel já cantou, canta e vai cantar milhões de vezes em “The Masterplan” algo que diz: “Existem 420 milhões de portas no corredor infinito da vida.” Engraçado é ver como nos perdemos nesse corredor tido como infinito ou como muitas vezes e em vários momentos de nossas vidas esse corredor parece não fazer sentido algum; ou pior, parece nem mesmo existir. Quantas oportunidades. Quantas possibilidades. Quantas coisas a serem vividas, exploradas, descobertas, experimentadas e conquistadas. Mas porque que diabos parece que muitas vezes estamos diante de um muro enorme que se torna de impossível escalada e não entramos de vez nesse maldito corredor infinito?

Talvez aquele velho desgraçado do Freud explique. Não é ele que explica tudo? Vejo potenciais sendo desperdiçados. Gênios se suicidando na mais completa solidão. Níveis de percepção e sagacidade sendo lentamente mortos dia a dia pela opressão da falta total de sentido que vida tem para muitas pessoas, e me sinto andando em círculos tentando encontrar respostas para coisas que muitas vezes eu nem sei se teriam realmente respostas.

Dizem que perdoar é para os fortes. Que amar é para os fortes. E viver? Viver também é para os fortes? Como podemos ser fortes quando tudo a nossa volta implica em uma fraqueza que só nos tira o que de mais valioso temos?

Vida.

Tinham


2009…

Entre eles havia paixão. Muita paixão. Tinha simpatia e respeito. Rolava também uma grande admiração. Eles se entendiam, pois eram vistos como “quadrados” para os padrões dos dias atuais. Apesar do gosto pelo Rock N’ Roll, as tatuagens, o estilo de vida, as Harleys, os Hot’s e Rat’s Rods, eles eram certinhos demais pra viver uma relação aberta. Algo solto e que soasse sem compromisso. Investiram. Pagaram pra ver. Rolou. O sexo era ótimo. A química era de dar inveja. Companheirismo e amizade não faltava. Foram ficando. Ele dormia na casa dela. Ela dormia na casa dele. Sumiam do mundo sem deixar rastro por alguns dias. Transavam em banheiros de postos e bares de beira de estrada. Se pegavam atrás de árvores e exploravam vários hotéis baratos e motéis fuleiros por onde passavam. Mas não se desgrudavam. O que rolava era quente. Era bom. Era forte. Intenso e arrebatador. Mas apesar de tudo, e da falta de brigas presentes na vida da grande maioria de casais; entre eles não existia amor. E assim acabou aquele amor. Quer dizer, assim acabou aquilo que eles tinham.

Despedida

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

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- Rubem Braga

O Coração Risonho

Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.

Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão.

Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.

Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.

Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski


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